
Comemorar o dia 10 de junho
no Brasil exige de nós uma postura de congraçamento,
ou seja, de abraço à cultura que nos formou como brasileiros
e que é a nossa mãe, como portugueses e luso-descendentestes,
meu caso particular. Por isso, foi com orgulho que aceitei o convite
do Sr. Amílcar Silva para estar hoje aqui, na Sociedade 1º
de Dezembro, falando sobre coisas que nos são caras, sobre
o dia de Portugal e o dia do nosso poeta, Luís de Camões,
porque todos os presentes não conhecem outro país que
possa se arvorar em ter a coincidência do seu dia identificado
ao de um poeta. O cantor épico d’Os Lusíadas,
voz lírica de sonetos e canções é a presença
que nos encanta, enorme, rica e inesgotável, que nos faz aqui
no Brasil termos a certeza de que assim como os portugueses dizem
que o Drummond é também deles, Camões é
do Brasil. Viveu em um tempo em que esta terra já era conhecida
e foi amigo particular do nosso primeiro historiador, Pero de Magalhães
de Gândavo. A História da província Santa Cruz
a que vulgarmente chamamos Brasil tem tercetos de Luís de Camões
pedidos por Gândavo para serem dedicados ao cavaleiro Leonis
Pereira, protetor do historiador. Até isso o nosso poeta foi
e quase não nos lembramos, soube ser amigo.
É particularmente importante lembrarmos dessa associação
entre um poeta e um país no exato momento em que vivemos uma
nova onda de curiosidade sobre a cultura portuguesa no Brasil. Depois
de José Saramago e de seu necessário Nobel, obras portuguesas
contemporâneas têm chegado ao nosso país e têm
sido lidas com entusiasmo, como evidencia recente edição
da Revista Época. Cito do blog da embaixada de Portugal:
O texto [da revista] incide, em especial, em Miguel Sousa Tavares
e no êxito que o seu novo romance, "Rio das Flores",
tem tido no Brasil, inserindo uma curta entrevista com o autor português.
Mas refere também o facto de que "dezenas de autores (portugueses)
têm frequentado as prateleiras" do Brasil, citando nomes
como Gonçalo M. Tavares, Miguel Gullander, José Rodrigues
dos Santos e José Luis Peixoto, com apoio de comentários
do professor universitário português Pedro Eiras e do
brasileiro Jorge Fernandes da Silveira.
Essa curiosidade se manifesta no exato instante em que, embora não
possamos propalar que formamos já uma nação de
leitores, recentes pesquisas comprovam sim que o número de
leitores no Brasil aumentou e destacadamente.
Há muito a se fazer para aproximar esses mundos de fala portuguesa,
derrubar preconceitos de ambos os lados do Atlântico, mas estou
absolutamente convencida de que a Educação e a Literatura
são vias certas. Quando falo de educação, não
me refiro só aos seus moldes formais, refiro-me a como aproximamos
as novas gerações de luso-descentes da terra de seus
pais e avós. Portugal não é o país de
antanho, é moderno e destaca-se hoje em terrenos como a alta
tecnologia. Além disso, como instigar essas novas gerações
a se apropriarem de seu patrimônio cultural? Penso que o primeiro
movimento passa ainda pelo colo, pelas histórias que são
contadas, pela moura encantada, pelos amores de Pedro e Inês...
O Expresso, por exemplo, elaborou uma coleção de livros
sobre os reis de Portugal, eles foram encartados no periódico
com CDs que contavam animadamente a história de Afonso Henriques,
o primeiro rei; da rainha D. Maria II, a educadora; de D. João
II, o príncipe perfeito... Que delícia poder escutar
essas narrativas com as crianças, aproximando-as da história
que também nos formou, a nós brasileiros, por que dentre
os reis que citei foi D. João II o grande artífice da
expansão que nos incluiu nessa história, muito mais
que o Infante D. Henrique...
A Literatura é uma via especial e nos obriga quase, dado o
esplendor da produção portuguesa, a convidar os jovens
a conhecerem o Fernando Pessoa, o Miguel Torga, a Sophia de Mello
Breyner Andresen, o Régio, o Camões... para ficar com
alguns poetas, temendo a heresia de não citar os romancistas,
como o Eça, o Camilo, o Herculano, a Lídia Jorge, o
Lobo Antunes, a Inês Pedrosa e tantos... e ainda há os
dramaturgos e nunca mais terminamos de citá-los todos... Alguém
poderia me inquirir, entretanto: qual é a importância
hoje de lermos Os Lusíadas, publicado no século XVI,
em um mundo globalizado e ameaçado pela anunciada destruição
biotecnológica ou pela desastrada maneira como violentamos
ao longo dos séculos a natureza? A noite é pequena para
elencar os motivos, mas basta saber que a extraordinária viagem
do Gama narrada n’ Os Lusíadas talvez tenha sido, ainda
que envolvida pela predileção de Vênus e perseguida
por Baco..., o prenúncio desse encontro com a diferença
e desse dilatar do mundo que, séculos depois seria conhecido
como globalização. Porque, enquanto o Velho do Restelo
vociferava na praia contra as naus que partiam, encenava-se a luta
entre o mundo da natura e o da cultura, conflito este que nos preocupa
hoje... Mas essas duas acanhadas razões não chegam perto
do talvez único motivo que nos deveria aproximar desse texto
– sem clichês, a nada simples verdade da sua BELEZA. Se
alguém me perguntar o que é esse poema, tomo emprestadas
as palavras de D. Cleonice Beradinelli:
Os Lusíadas são o poema dos descobrimentos, do desvendamento
dos mares e das terras, e da afirmação do poder do homem
sobre os elementos, mas também da reafirmação
dos valores cavaleirescos caracteristicamente medievais. Essa coexistência
de valores se deve aos dois tempos principais em que decorrem as narrativas
que se encaixam, formando o poema: o tempo presente [da narrativa],
da viagem à Índia; o tempo passado, da história
de Portugal; e não se esqueça ainda o tempo futuro,
previsto pelas profecias.
Há tudo nesse texto – aventura, amor, embates, guerra,
doença... – em um todo rico, feito por um poeta cuja
vida não foi uma navegação sem tempestades...:
Das (...) origens, sabemos que foi seu trisavô o poeta Vasco
Pires de Camões, galego, e sua avó D. Guiomar da Gama,
parenta de Vasco da Gama. É provável que tenha cursado
a Universidade de Coimbra, onde era reitor o tio D. Bento Camões,
prior de Santa Cruz, mas seu nome não consta dos registros.
Pedro Mariz, seu primeiro biógrafo, menciona a sua ida a Ceuta
(...). Atribuem alguns essa ida a um caso amoroso na corte, que então
freqüentava, como voltará a freqüentar depois do
seu regresso, perdido um olho em combate. (...) [Pela agressão
ou não a Gonçalo Borges, o certo é que, depois
de uma carta de perdão de D. João III, vai servir à
Índia. Na ida enfrenta tormentas documentadas. Em Goa é
preso e, novamente, a caminho de Moçambique... Em 7 de abril
de 1570, volta a Portugal.] Encontra uma Lisboa abalada pela peste
do ano anterior. [No seguinte,] consegue um privilégio para
a impressão d’Os Lusíadas, que seriam editados
[um ano depois].
Como afirmei antes, o cantor épico soube dividir o palco com
o lírico e compreendeu seu estado de forma a incluir todos
aqueles que, em um momento da vida, conseguem ter a lucidez para impor
a si próprios as mais duras e desiludidas considerações:
Erros meus,
má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mim bastava amor somente.
Tudo passei;
mas tenho tão presente
A grande dor das cousas, que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
Errei todo
o discurso de meus anos;
Dei causa que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
De amor
não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!
O poeta é aquele
que sabe dizer aquilo que nós só sabemos sentir. É
imenso o verso “errei todo o discurso de meus anos”: nele
podemos ler a reflexão madura daquele que faz um balanço
da vida; daquele que denuncia seus enganos e daquele que não
teve um norte que abreviasse o seu destino de errante... Isso, só
em um verso.
Camões produziu peças que embalam namorados de hoje
e sempre. Seus versos foram enxertados em composições
do rock brasileiro , para comprovar o óbvio, que o amor na
alma tem posto, desde a Antigüidade, “um não sei
quê, que nasce não sei onde,/ Vem não sei como,
e dói não sei por quê”. Sobre a perda que
revolta, quem saberia expressar melhor que ele as saudades sentidas
por aqueles que ficam?
Alma minha
gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá
no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires
que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus,
que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
Dos conhecidos sonetos,
salto para um poema absolutamente singular no contexto que o viu nascer.
Sabemos que o cancioneiro medieval de amor contemplava as mulheres
da corte como principal inspiração, enquanto as do povo
eram mote para composições de escárnio... Pois
Camões transformou a estrangeira e cativa, Bárbara,
em mais prestigiada dama, em uma endecha, que mereceu uma inesquecível
gravação do saudoso Zeca Afonso:
Aquela
cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais fermosa.
Nem no campo
flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.
Uma graça
viva,
Que neles lhe mora,
Para ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.
Pretidão
de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.
Presença
serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
É força que viva.
Subvertendo o jogo de poder
que faria de Bárbara a escrava, o amor que o eu lírico
lhe dedica transforma-o sim em cativo. A beleza serena e ajuizada
da musa rasura os padrões de beleza e os loiros cabelos perdem
a opinião que os tornava preferidos. Até a natura se
submete, pois a neve quer trocar a sua cor... Pois essa endecha é
a afirmação do poder e valor daquele, no caso, daquela
obrigada ao cativeiro...
O 10 de junho é o dia de Portugal, dia de Camões e das
comunidades portuguesas. Ontem, o presidente Cavaco Silva, afirmou
em mensagem a essas comunidades:
Sabemos que não é de hoje a aventura portuguesa no mundo.
Mas, se os Portugueses que partiram da sua pátria têm
uma história feita de determinação e de engenho,
têm também um presente e terão, certamente, um
futuro que importa valorizar. (...) A facilidade de comunicação
e a rapidez de transferência de conhecimento, que caracteriza
a globalização, configura um novo desafio para Portugal,
mas simultaneamente uma nova realidade para a nossa diáspora./
Se no passado muitos partiram sem saber se algum dia teriam a possibilidade
de regressar, hoje as distâncias encurtam-se e todos os Portugueses
podem estar bem mais próximos uns dos outros e do seu País.
Dessa diáspora, Camões foi o cantor do seu aspecto mais
brilhante, da busca, do desejo de saber mais e chegar longe, em desafio
aos próprios deuses necessários à epopéia
renascentista. Mas, mesmo ele, depois de ter feito retornar seus heróis
à casa, também sentiu o peso do canto e pediu à
musa que o calasse... Que as distâncias que o seu canto viu
menores sejam realidade no mundo da Língua Portuguesa hoje
e que, aproveitando a nova onda de curiosidade pela cultura lusíada,
possamos educar a nós próprios, aos nossos filhos luso-descentes,
brasileiros e portugueses, a expressar o amor e a admiração
pelo nosso Portugal.
Marcella Lopes Guimarães 10 de junho de 2008.
Professora Doutora de História Medieval da UFPR.
http://www.presidencia.pt/diadeportugal2008/?idc=523&idi=17216
acesso em 10 de junho de 2008.